"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", sábio verso de uma das canções de Caetano Veloso e também uma apologia às diferenças. As empresas mudam e inovam graças a essas diferenças, às vezes inspiradoras, quase sempre conflituosas. E aí está problema: para evitar conflitos, acabamos abrindo mão, muitas vezes, do poder e da força das diferenças.
Dizer que as pessoas são diferentes entre si talvez seja reconhecer o óbvio, mas este óbvio é esquecido com muita freqüência. Muitos líderes preferem limitar as pessoas em seus departamentos, cargos e funções para que os pensamentos delas não atrapalhem o seu jeito de pensar. É claro que a vida parece ficar mais simples quando, de alguma forma, amordaçamos as inteligências das pessoas. Mas os prejuízos são enormes.
Administrar, para alguns líderes, é dar cabo das diferenças. Não fazem outra coisa a não ser polir as arestas e cercear os ânimos. Mas as empresas pagam um preço caro por isso: o de repetir-se a cada dia, com os resultados cada vez mais diminutos e com os clientes cada vez mais infiéis.
É claro que é mais fácil liderar uma equipe constituída de vaquinhas de presépio, coroinhas programados ou guarda-costas obedientes. Acontece que o cliente não é mais condescendente com esses tipos de empresas. As exigências são muitas e a cada dia mais desafiadoras. É preciso juntar as diferenças em torno de uma causa comum para obter os melhores resultados.
Aí está um dos principais desafios dos grandes líderes: saber lidar positivamente com as diferenças! E quais são elas?
Diferentes estilos
Alguns são bons de iniciativa mas com dificuldades para levar até o final os seus projetos. Outros têm dificuldades em dar o pontapé inicial mas são disciplinados e perseverantes em levar ao término as suas obras.
Alguns são dados ao pioneirismo, conseguem ver além do óbvio: são os empreendedores. Capazes de transformar oportunidades em idéias geniais mas, na maior parte das vezes, incapazes de transformar as idéias geniais em negócios lucrativos. A não ser que peçam ajuda aos organizadores, capazes de transformar a boa idéia em processos de trabalho rentáveis.
Outros são direcionados, competitivos, rápidos, incansáveis, obstinados até. Colocam os objetivos e metas acima de qualquer outra coisa e não sossegam enquanto não os atingem. São implacáveis samurais de empresas e não desanimam com facilidade. Mas podem despender esforços a esmo, não fosse o foco estratégico percebido pelo empreendedor podem gastar energia em vão, não fosse a capacidade de gestão de recursos do organizador.
Tem também o catalisador, capaz de juntar esforços, energias e talentos em prol de um objetivo comum. O seu talento de líder faz com que seja capaz de conduzir pessoas para onde elas desejam ir. Sabe constituir e desenvolver equipes. Mas também necessita do foco do empreendedor, da pujança do lutador, da gestão do organizador.
Qual é o melhor estilo? Todos, quando em uma relação de interdependência e de auto-reforço. Para conseguir os melhores resultados, uma empresa necessita de todos os estilos acima interagindo de maneira produtiva.
Diferentes inteligências
Há poucos anos atrás, pesquisadores de Harvard, comandados por Howard Gardner, descobriram a existência de diversas "inteligências", além daquelas mais conhecidas e valorizadas pelas escolas e empresas, quais sejam: lógico-matemática (para tratar de problemas lógicos, cálculo e números) e lingüística (expressão verbal e escrita).
Outras, menos cotadas, são tão importantes quanto aquelas: espacial (percepção de grandeza e de espaço), físico-cinestésica (lidar com movimento e expressão corporal), musical (interpretar e expressar-se através da música), naturalista (lidar com plantas e animais), pictográfica (capacidade de comunicação através do traço e do desenho), interpessoal (capacidade de relacionamento com os outros), intrapessoal (capacidade de auto-conhecer-se), dentre outras inteligências, ainda em estudo.
A combinação entre os vários tipos de inteligências nos torna únicos e, portanto, com uma capacidade ímpar para solucionar problemas. Olhando por esse ângulo, podemos dizer que quando as diferenças entre as pessoas são valorizadas e até enaltecidas, ampliam-se consideravelmente as possibilidades na resolução dos problemas em uma empresa.
Diferentes valores
Somos governados por nossos valores. São eles que melhor traduzem os nossos pensamentos e sentimentos e, portanto, demonstram as nossas diferenças em um nível mais profundo. As diferenças de valores explicam, portanto, as principais razões dos conflitos entre as pessoas. É por isso que muitos conflitos não são resolvidos apenas no nível da comunicação e do relacionamento. É preciso ir mais fundo, é preciso conhecer os valores que governam os nossos comportamentos.
As escalas diferenciadas de valores, de pessoa para pessoa, faz com que as relações humanas sejam ainda mais complicadas. Enquanto alguns valorizam a tradição, a segurança, a saúde, a família, outros preferem a aventura, a coragem, o conhecimento e o crescimento pessoal. Justiça, honestidade e perdão para alguns desafio, criatividade e crescimento espiritual para outros. Alguns valores são mais materiais (status, dinheiro, posição social, posses), outros mais espirituais (amor, bondade, tolerância) alguns são mais egoístas, outros mais altruístas.
O fato é que todos querem viver os seus valores. Qual o risco de uma empresa em que as pessoas não podem viver os próprios valores? O risco da anomia, da falta de entusiasmo, da alienação. Os valores são as principais forças motivadoras das pessoas e sem elas resta o desânimo e o baixo nível de comprometimento. Os bons líderes sabem disso e sabem também compatibilizar os valores pessoais com os valores organizacionais. Está aí a chance do líder em criar uma causa comum, conforme citada na primeira parte desse artigo.
Santa diferença!
É papel da liderança apreciar, valorizar e saber tirar proveito das diferenças. Reconhecer as diferenças como benéficas e enxergar todas as pessoas como úteis e produtivas em algum lugar e de alguma forma.
Não é tornando as pessoas semelhantes que se constrói a grandeza da vida, mas enaltecendo as diferenças.
Roberto Adami Tranjan
« Voltar