- Não sei como ele conseguiu chegar a essa posição na empresa - resmunga Alfredo, olhando para o relógio. Estou esperando ser atendido desde as nove horas.
- Você tem razão - solidariza-se Antonio, também desanimado. E todos os dias é a mesma coisa.
- Sabe o que acontece? - acrescenta Sonia, colega de outro departamento. O Soares não acredita em ninguém. Esse é que é o ponto. Ele desconfia de todo mundo.
- É isso mesmo - reforça Alfredo. Você consegue enxergar isso, eu e o Antonio também, mas por que será que a diretoria não vê que o Soares não está preparado para essa função de liderança?
- Eu já trabalhei diretamente com ele - relembra Antonio. Éramos colegas e tínhamos a mesma função, antes dele ser promovido. Soares era muito inquieto e inteligente. E um crítico mordaz da burocracia da empresa. Até parece que emburreceu... Cadê o Soares que eu conheci? Metido a revolucionário, cheio de sonhos e vontades...
- Sabe Antonio, é você que enxergava o Soares dessa forma. Ninguém muda tão radicalmente. Você que não notava. Não é possível que uma pessoa regrida tanto. Se o Soares apostasse uma corrida com uma tartaruga, acabaria perdendo - enquanto faz o comentário, Alfredo olha novamente para o relógio.
- Nós três estamos aqui, imobilizados nessa espera - afirma Sonia, com razão. Calculem quanto a empresa está perdendo com isso.
- Desculpem a falta de modéstia... - Alfredo volta a criticar -... Mas comigo seria muito diferente.
Esse tipo de diálogo chega a ser comum em muitas empresas. Existem muitos Soares por ai. E a trajetória deles é sempre semelhante. De fato, o que é tomado como exemplo, aqui, era um bom funcionário. Trabalhava, com destaque, na área comercial - participava de tudo e era muito empenhado. Por isso, e também pela sua lealdade, a diretoria resolveu promove-lo. Ele continua correspondendo, nesses dois quesitos. Como líder que é, agora, Soares trabalha ainda mais do que antes. Empenho não lhe falta. No desempenho, no entanto, deixa a desejar. Não conseguiu alcançar os resultados que a diretoria esperava, quando o promoveu. Ainda assim, continua no novo posto. Sua lealdade conta muito, aos olhos da diretoria.
Mas, afinal, o que aconteceu com o Soares? Antes olhava para o mundo com grande benevolência. Acreditava no futuro, nas pessoas, nos negócios. Via oportunidade em tudo quanto era canto. Pulava cedo da cama em direção dos seus sonhos e era um entusiasta capaz de contagiar todos os seus colegas. Sempre tratava de fazer algo diferente e era considerado muito criativo. Assumia riscos e pagava para ver. A diretoria tinha, mesmo, razões de sobra para lhe oferecer aquela posição importante na empresa.
O problema é que o Soares foi infectado pelo vírus da autopreservação. Trata-se de um agente patológico sempre à espreita para atacar as pessoas que vão conquistando mais poder, dentro de uma organização. Antes, Soares tinha pouco a perder: um emprego, uma função, um salário. Agora, se for demitido por cometer algum equívoco, ficará sem um bocado de coisas, além daquelas básicas, de antes. Então, perderá, também, o cargo de liderança, o bônus, o destaque, o status, o reconhecimento, o respeito, as benesses, o conforto, o poder...
Soares mudou muito, sim. Onde antes vislumbrava oportunidades, agora só enxerga ameaças. O mundo de abundância deu lugar a um mundo de escassez. Ocupado em preservar-se, Soares está voltado para si mesmo. Não pensa mais em contribuir. A coragem que o levava a assumir a aventura e o risco virou a tremenda cautela de quem só almeja segurança e conforto. A sua capacidade de criar e inovar cedeu espaço à rotina e à repetição, para que suas conquistas não sejam colocadas em xeque. Na posição em que está, quanto menos moda inventar, mais preservado estará aumentando sua chance de ser lembrado para uma nova promoção. Ousar induz ao erro e errar não conta pontos... nas empresas tradicionais.
Soares ascendeu na hierarquia, possui poder e privilégios. Em seu íntimo, porém, lembra com saudades do tempo em que dividia os desafios com Antonio e, juntos, comemoravam com alegria as pequenas e as grandes conquistas.
Pois então... não tardou muito para que dois personagens da história inicial se encontrassem na mesma situação de espera, só que diante de uma outra porta...
- Acho que o Soares envelheceu antes do tempo - Antonio pensa com seus botões, quando é interrompido abruptamente por Sonia.
- Não sei como é possível uma coisa dessas!
- Do você está falando, Sonia?
- Estamos aqui há quarenta e cinco minutos, esperando que Alfredo nos atenda! Como uma pessoa que mal sabe administrar a própria vida pode ser promovida para um cargo de liderança na empresa? Está na cara que ele não consegue dar conta do recado.
- Não dá pra acreditar... justo o Alfredo... que era tão revolucionário...
Moral da história:
O vírus da autopreservação é sorrateiro, mas quando se instala faz um estrago danado. Então, olho vivo, para escapar dele!
Roberto Adami Tranjan
Fonte: http://www.cempre.net/
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