27/07/2010 • A arte de sair do lugar-comum

É por conta dela que adiamos o treino na academia, as aulas de inglês, a leitura do último best-seller, a visita ao amigo, o passeio com os filhos, a ajuda ao próximo. Falta de tempo! Essa tem sido a desculpa mais comum entre os mortais comuns, com o perdão da redundância. Digo mortais comuns não para desmerecer, mas para destacá-los de uma outra turma de mortais que parece lidar muito bem com essa questão do tempo. Conseguem a proeza paradoxal de realizar muitas coisas e ainda ficam com umas reservas para tudo aquilo que os comuns (para espanto deles) nunca incluem no dia-a-dia.

 

O leitor poderia supor tratar-se de uma habilidade de gestão do tempo, algo como saber classificar os afazeres entre os mais importantes e os mais urgentes. Essa classificação permite priorizar as tarefas e separar o joio do trigo. De fato, esse cuidado é uma das características positivas daqueles que lidam bem com o tempo. Mas isso é apenas uma parte, e nem mesmo a mais importante, desse típico dilema.

 

O leitor poderia supor também que se trata de uma técnica apoiada em uma complexa agenda eletrônica, dessas que são o supra-sumo da mais nova tecnologia. Sem dúvida, uma agenda é muito útil. Evita congestionar ou, pior ainda, esquecer os compromissos. Não espere mais que isso de uma agenda. Sozinha, simplesmente por existir e estar disponível, ela não faz milagres. É, também, uma pequena parte dos segredos da boa gestão do tempo.

 

Para começar, os mortais comuns e os não-comuns têm uma relação diferente com o tempo. Os mortais comuns vivem a era do demais: coisas demais, distrações demais, barulhos demais, oportunidades demais. Para os mortais comuns o ano continua tendo doze meses e o dia, 24 horas. Vêem o tempo como um recurso escasso. Diante dessas limitações, esforçam-se em tentar otimizar o tempo ao máximo. Caem, facilmente, nas armadilhas da compressão e da exclusão. 

 

Compressão implica agendar mais de um compromisso no mesmo espaço de tempo. É aquele executivo que marca reunião no final do expediente, promete buscar o filho na escola e compromete-se em jantar com a esposa e amigos. Esse não é um caso isolado. Há legiões de desarvorados como ele, tentando (em vão, claro!) fazer várias coisas ao mesmo tempo, na ilusão de que usam melhor ou mesmo esticam o tempo.

 

Exclusão é deixar de fora acontecimentos importantes, como a festa de aniversário de um velho amigo, o jantar com a família, o espetáculo especial em cartaz. Daí a legião de deseducados, que negligenciam compromissos, não cumprem horários e não se fazem presentes.

 

Quais são, então, os grandes segredos dos não-comuns? Eles têm uma relação diferente com o tempo.

 

Os não-comuns vêem o tempo com generosidade e abundância. São gratos pelo crédito diário de 86.400 pontos - o tanto de segundos a que cada um de nós tem direito. Sabem que não podem transferir nenhum saldo do dia para o seguinte. Reconhecem que ao soar de cada meia-noite o saldo é zerado, mesmo que não tenham feito bom proveito do crédito - mas terão um novo na manhã seguinte, que se esgota à mesma hora noturna. Não há como voltar o relógio da vida, para recuperar pontos perdidos. A sabedoria dos não-comuns é justamente serem gratos pela concessão diária dos créditos e investi-los no que for melhor.

 

Outro segredo dos não-comuns está em distinguir o que é o melhor. Os não-comuns sabem que o melhor está relacionado ao seu propósito. Atenção: os não-comuns possuem propósitos. Sabem onde querem chegar e sabem que na falta de um propósito próprio, é fácil cair na cilada de trabalhar para o propósito dos outros.

 

Aqui vale uma ressalva: é bom não confundir propósitos com listar coisas para fazer. Exemplo: você se levanta às sete horas e faz, antes do café da manhã, um passeio de meia hora. Depois lê os jornais e dirige-se ao escritório. Lê as correspondências, incluindo o correio eletrônico. Telefona, despacha, resolve problemas. A hora do almoço é partilhada com os amigos, com direito a um cafezinho para assentar a sobremesa. Na volta ao escritório, há provavelmente algumas coisas particulares para fazer, como telefonemas, antes do mergulho em reuniões, solução de problemas. Ao voltar para casa, ginástica, jantar, televisão, sono. Quando acorda, oitenta anos se passaram. 

 

Ter propósito é diferente disso. É ser bússola, em vez de ser vela. É gozar a viagem, mais do que chegar ao destino. Gandhi dizia que "há mais coisas no viver do que acelerar o seu ritmo". Quem tem propósitos, tem projetos. É diferente daquele sentimento momentâneo de alívio, ao final do dia, ao ver vários itens ticados na lista dos afazeres. No dia seguinte, nova lista, novos itens, novos tiques, numa rotina sem fim.

 

Quem tem propósito sabe que mais importante do que a lista de coisas para fazer é a lista de coisas para não-fazer. Está aí mais um dos segredos dos não-comuns: poupar seu crédito diário de 86.400 segundos da dilapidação, com atitudes e dispersões que não remetem aos seus propósitos.  

 

Lá vai o segredo final dos não-comuns: paixão. Mais do que ter propósitos é estar apaixonado por eles. Quando existe propósito e paixão, você não adia. Você vai lá e faz, não é mesmo? E sente-se bem com isso. É quando não existe distinção entre trabalho e divertimento. É ser capaz de trocar o chrónos (palavra grega para designar o tempo que não passa) pelo kairós (palavra grega que significa a perda da noção de tempo, tal é o deleite).

 

Na verdade, existe muito tempo disponível. O problema é que os mortais comuns estão mortos na maior parte dele. A sabedoria maior daqueles que não tem a falta de tempo como eterna desculpa é que não se deixaram consumir. Antes, descobriram que ganhar a vida é apropriar-se do tempo, a sua mais importante matéria-prima.

 

Assim entendem e assim fazem. Amém. 

 

Roberto Adami Tranjan

www.cempre.net

 

« Voltar


luz

Luz & Oliveira
Luz & Oliveira Contadores
Rua Otto Boehm, 756
 | Joinville | SC |  89201-700 | Brasil  |
 (47) 3121-6900
Desenvolvimento TWC Comunicação